O
trampolim, experiência apenas curiosa
“O trampolim” é um espetáculo
relativamente incomum em nossa cena. Em primeiro lugar, por se tratar de um
dramaturgo belga, que também assume a direção do espetáculo. Em segundo lugar,
por traduzir essa miscigenação cultural entre europeus e brasileiros na
realização de um espetáculo. Em terceiro lugar, enfim, porque se trata de um
espetáculo formado por três diferentes monólogos, cada um interpretado por um
ator, de sorte que podemos apreciar diferentes aspectos da dramaturgia desse
escritor, que é também romancista e, ao mesmo tempo, conhecer as
interpretações de três diferentes atores.
O tema comum é o “trampolim” enquanto metáfora de vida, como diz o autor,
momento de decisões radicais na vida de cada um: o primeiro texto, “Contigo”
enfoca a indecisão de um homem em mergulhar na sua paixão. Num segundo
momento, “O mistério de uma língua”, descreve-se uma parábola em que as
autoridades de uma pequena aldeia cortam a língua de um negro por ele falar a
verdade. Por fim, em “Alô?”, um cantor de sucesso está à morte e tenta colocar
sua vida em dia, através de um telefonema.
A tradução, de Lúcia Maria Silva, pelo que se pode deduzir, ouvindo apenas o
texto em português, de modo geral conseguiu dar maleabilidade à fala
brasileira, à exceção da manutenção de alguns pronomes pessoais que,
existentes em francês, ficam apenas implícitos no português mas que acabaram
mantidos na tradução, talvez até para servirem de “bengala” para as falas das
personagens.
O monólogo é sempre um duplo desafio: para o ator, que deve decorá-lo, e para
o espectador, que deve acompanhar a personagem sem perder o fio do enredo.
Confesso que nem sempre consegui acompanhar os aparentes saltos que o texto
dá, as passagens de uma referência mais realista para alguma alusão simbólica,
sobretudo nos primeiro e último textos, já que a parábola do segundo é
explícita e carece de exlicações.
O cenário é o palco aberto, onde ganha maior importância a iluminação,
sobretudo um losango de luz forte que está na boca de cena e que centraliza a
atenção das personagens em todos os monólogos.
Os atores, apesar do frio, apresentam-se como banhistas: Léo Oliveira, de
“Contigo”, apenas de calção e óculos de natação; José Alessandro, em “O
Mistério de uma língua”, vem primeiro com uma calça de abrigo que depois
retira; por fim, Vinicius Brener, em “Alô?”, surge com um roupão, com que
permanece durante seu texto.
Com seus altos e baixos, no sentido de ser um espetáculo “pobre”, quase
amador, no sentido de carência de acabamento e de dificuldades de produção,
bem como na qualificação de seus intérpretes, nem por isso “O trampolim” deixa
de ser, de algum modo, interessante, quanto mais não seja, por nos permitir,
como registrei no início, conhecer um dramaturgo estrangeiro e alguns textos
eminentemente experimentais mas que não fogem ao universo de experiências de
nosso público.
Antônio Hohlfeldt
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